Sempre cessam, a raiva e a dor.

A raiva sempre cessa, mais cedo ou mais tarde, ela passa. O sono volta e a gente até ri da história, de tão absurda. A gente vai mudando o foco, dando atenção para outras coisas. O trabalho preenche, os amigos aliviam e não há nada que uma, ou mais, garrafas de vinho não amenizem.

Perdi o sono por noites a fio tentando entender o porquê, e formei uma porção de teorias, até deixar pra lá. Até perceber que eu nunca entenderia, porque jamais faria igual. Ele me feriu em lugares que ninguém nunca sequer tocou, se virou e foi embora, ileso, sem peso algum. E eu o odiei, por Deus, como eu o odiei. Mas a raiva sempre cessa, não é mesmo. Ele sabe bem, eu o perdoei mais vezes do que posso contar. E poderia perdoa-lo agora mais uma, o que eu não posso é voltar a admira-lo. O que não posso e não consigo, é deixar de ficar nauseada quando lembro das mãos dele em mim, quando penso em tudo que foi dito. Mas não desejo mal, também não torço a favor, ele se tornou só mais um mero mortal. O homem que eu amava morreu naquela noite.

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