Memória.




Sai de casa com destino a catedral, hoje era a missa da nossa formatura e a primeira coisa que veio à mente, foi o rosto dele. Ele teria adorado, apesar de ser em uma catedral católica, o culto foi realizado, quase que por inteiro, por um pastor. E eu quase pude ouvi-lo dizendo com voz de sarcasmo, nota como ele fala melhor do que o padre. Eu passei a celebração toda imaginando por onde ele andava, se não sentado ao meu lado, me fazendo rir e atraindo olhares de reprovação. Me perguntei o que ele estaria fazendo de mais importante, do que me dar a mão durante a prece que dizia, "toda dificuldade encontrada e cada alma que conhecemos durante todos esses anos...". Ele sem duvida foi a alma mais bonita que conheci nos últimos 5 anos. Meia década, ele deveria ter estado ao meu lado, porque eu estava sozinha lá, sentada num banco frio, imaginando porque ele preferiu ir pra tão longe de mim.

Voltei pra casa, contando os passos, esperando que alguém me encontrasse e me lembrasse que ele não era mais a minha pessoa. Dei de cara com a porta do prédio emperrada, apesar de todos os esforços pra abri-la, não funcionou e eu me sentei no chão e chorei, não por não ter pra onde ir, mas por essa ocasião ser idêntica à ultima vez em que ele cuidou de mim. Por ele ser a pessoa pra quem eu sempre ligava quando não tinha pra onde ir, por ele ainda ser, por alguma razão que desconheço, meu contato de emergência. Por ele não estar mais aqui pra me atender rindo da minha falta de jeito e dizer que já estava arrumando minha cama. Por eu não poder mais correr pra porta dele e dormir no colchão que ele havia preparado bem ao lado dele, ouvindo aquela respiração quase imperceptível, que as vezes me fazia checar se ele ainda estava realmente respirando. Eu estou do lado de fora do prédio, com o celular na mão, me perguntando por que ele atravessou o estado e me deixou aqui.

Mais do que o amor da minha vida, ele era meu porto seguro. Mais do que o homem que eu queria, ele era quem cuidava de mim, quem sempre me atendia rindo do meu azar com fechaduras, do meu medo de andar sozinha, do meu orgulho ferido por pedir ajuda. Pior do que estar sentada na calçada agora, é não poder ouvir o som da risada de quem perdoava meu mau humor e sempre me recebia de braços abertos a qualquer hora da noite.

Eu sinto falta do homem que ele costumava ser, sinto falta do homem por quem eu me apaixonei, do homem que um dia disse que lutaria por nós. Mas ele se foi, e dessa vez não estou falando do outro lado do estado, ele se foi pra sempre, deixou de existir. As únicas coisas que ele deixou foram, um bilhete amassado e uma mulher apaixonada por uma memória que não existe mais.

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